Crianças experimentam drogas cada vez mais cedo

 Estado de Minas

Dos dependentes químicos atendidos pelo SOS Drogas em Minas, 36,5% tiveram primeiro contato com entorpecentes na faixa dos 12 anos.

Inocência, descobertas e brincadeiras costumam ser marcas da infância e da adolescência. Porém, uma parcela cada vez maior de meninos e meninas vem incorporando ao universo de carrinhos, bolas e bonecas um item muito perigoso. De acordo com dados da Subsecretaria de Políticas Antidrogas do governo de Minas Gerais, 36,5% dos dependentes químicos atendidos em 2009 pelo SOS Drogas declararam ter tido o primeiro contato com entorpecentes aos 12 anos ou menos. Estudo feito pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas (Cebrid) revela que 12,8% de crianças entre 10 e 12 anos já experimentaram algum tipo de substância ilícita, o que exclui álcool e tabaco. No entanto, como o último levantamento realizado pelo órgão foi há mais de cinco anos, os especialistas acreditam que esse número hoje seja bem maior.
W.E.R é um dos que engrossam as estatísticas. Ele tem 18 anos, mas foi aos 12 que provou pela primeira vez a sensação provocada pela inalação do tíner. “Foi uma onda muito louca”, define. Na época, o adolescente já fumava cigarro. “Todos os meninos populares do colégio fumavam, queria ser igual a eles”, conta. Da droga lícita, passou para a maconha e chegou ao crack. “Já fiquei o dia inteiro dentro do quarto só usando”. O caminho percorrido por W.E.R é bastante comum entre os jovens que entram para o mundo das drogas. Segundo a psicóloga Cristiana de Souza Abreu, coordenadora da Ampare, instituição de tratamento e apoio a toxicômanos e família, o álcool e o cigarro geralmente são a porta de entrada para as outras substâncias. “Muitas vezes eles começam a beber dentro de casa, provando restos de bebida em copos deixados nas festas”, alerta.
Com R.L., de 33 anos, foi assim. “Minha família fazia muitas festas regadas a bebida e todos me mandavam buscar cerveja. Aos 9 anos, eu me lembro que já deixava um copo ao lado da geladeira e tomava escondido”, declara. Na época, ele não imaginava que a cerveja seria apenas a primeira de muitas drogas que viria a conhecer. Aos 10 anos , R. foi apresentado à maconha; aos 11 ao tíner; aos 14 à cocaína e, mais tarde, chegou àquele que, segundo ele, foi o responsável por sua derrocada: o crack. “Ele acabou com minha vida”, afirma. Sob efeito da droga, ele assaltou a casa do pai. “Fiz uma limpa, levei tudo e ele chamou a polícia pra mim”. Somente depois de admitir a derrota para as drogas, R. aceitou a ajuda dos pais, que o encaminharam para o tratamento. “Hoje, com o apoio deles, espero conseguir sair dessa. A droga é ótima, o ruim são as consequências que ela traz”, afirma, em tom polêmico.
Mas, afinal, o que leva crianças que deveriam estar só brincando a ingressar nessa que, muitas vezes, é uma viagem sem volta? Segundo a psiquiatra Tatiana Mourão Lourenço, professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), especialista em dependência química, a pré-adolescência é um período delicado, em que há o desejo de experimentar de tudo. No entanto, ela ressalta que provar não significa viciar. Já os motivos que farão esses meninos e meninas tornarem-se dependentes ou não, segundo a especialista, serão características individuais. “A ausência dos pais e de valores, o ambiente em que vivem, a falta de regras, modelos e de apoio emocional. Tudo isso facilitará a entrega dessas crianças e adolescentes à droga”, destaca.
Da história de vida de W.E.R ficam visíveis os fatores que contribuíram para a rendição ao vício. Além de ser morador de uma comunidade onde a droga circulava livremente, suas referências não foram das melhores. “Meu pai é alcoólatra e usa outras drogas. Ele chegava em casa doidão, quebrando tudo”. As agressões familiares eram comuns e o garoto se refugiava na ‘onda’ que o crack lhe proporcionava. “Já cheguei a bater no meu pai porque não aguentava ver minha mãe sofrendo”, conta. Aos 14 anos, ele era um ‘aviãozinho’, destinado a pequenas vendas de droga.
Apesar de o ambiente e o meio social representarem maior vulnerabilidade, a droga não escolhe classe social. L.F.B, de 20, pertence a uma família de classe média e, segundo ele, nunca lhe faltou nada. “Estudei em boas escolas e meus pais sempre me deram bons exemplos”. Mesmo assim, como ele define, pegou “um desvio errado”. Aos 11 anos, bebia e fumava. Aos 13, experimentou a maconha.
Mas foi a associação álcool e cocaína que fez o jovem chegar ao fundo do poço. “Sempre achei que tinha o controle, que conseguiria parar quando quisesse. Mas não foi bem assim”, relata o garoto, que há 20 dias iniciou o tratamento para se livrar da dependência. Segundo os especialistas, a ilusão de controle é recorrente entre a maioria dos usuários. “A gente pensa que tem o domínio sobre a droga e quando vemos ela já nos dominou há muito tempo”, relata o também dependente C.J.

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