A seleção movida a álcool

Observatório da Imprensa
Artigo escrito Por Carlos Salgado – Psiquiatra, presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (Abead).

O técnico é novo, mas a história é velha conhecida. Mais uma vez assistimos a uma figura da seleção brasileira de futebol ceder sua imagem para a publicidade de bebidas alcoólicas e contribuir para reforçar um conceito cultural distorcido, mas bastante difundido no país, que associa o futebol à cerveja. Nossos técnicos e jogadores de futebol precisam entender que a publicidade é um importante incentivo para o consumo do álcool. E os jovens, apaixonados por futebol e que têm nos gramados ídolos capazes de influenciar comportamentos, são o maior alvo desse tipo de propaganda.

A relação entre os adolescentes e consumo de bebidas alcoólicas no Brasil é alarmante. Os garotos e garotas entre 14 e 17 anos são responsáveis por 6% de todo o consumo anual de álcool no país, ainda que, reza a lei, sejam proibidos de comprá-lo, o que prova nossa fragilidade em cumprir a legislação e deflagra os perigos da experimentação, que acontece cada vez mais cedo.
Essa vulnerabilidade abre caminho para que a publicidade potencialize o consumo desse grupo e nos leva a uma triste perspectiva. Se 90% dos jovens começam com o álcool antes dos 18 anos, o risco de a sociedade deparar com adultos dependentes de bebidas alcoólicas é diretamente proporcional.
Também a embriaguez, o chamado “porre”, pode, para muitos, parecer apenas brincadeira da garotada, mas evidencia o sintoma de uma conduta social que inconscientemente aprova o consumo de álcool. Essas crises de ingestão, em muitos casos, estão relacionadas com violência, sexo desprotegido, acidentes e maior risco de dano cerebral, além do evidente risco da fixação do hábito.
Impacto negativo
Esse é um grupo intricado, mas no qual as empresas avistam um “mercado” potencial e, sem as devidas e há muito esperadas medidas restritivas, no qual seguem com maciço investimento. Um estudo recente que analisou 420 horas de programação televisiva, por exemplo, identificou que a maioria das propagandas de bebidas alcoólicas acontece durante programas esportivos, com ao menos 10% de audiência de adolescentes. Não houve nenhum programa esportivo que não tivesse bebidas alcoólicas entre os anúncios.
O risco social é iminente, pois sabemos também que o álcool é apenas a porta de entrada para outras drogas, principalmente as chamadas “drogas leves”, como a maconha. Portanto, prevenção para o consumo de drogas é fundamental, mas cairá no vazio se não houver medidas restritivas à publicidade de bebidas alcoólicas.
É necessário combater a ideia de que o futebol é um espetáculo movido a cerveja e que beber é o “esporte” dos jovens. Pelo contrário, a droga amplifica as rivalidades e a tensão entre torcedores apaixonados e em natural oposição, infelizmente facilitando a agressividade. O impacto negativo para a sociedade e para a saúde pública é evidente e lamento que figuras admiradas sejam protagonistas de histórias que não nos dão nenhum selo de qualidade.

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