Leda Nagle: O crack e o tempo

O DIA – Opinião

Rio –  A foto dos cracudos pulando em cima de um carro na Avenida Brasil publicada nos jornais assusta pelo fato em si, pelo choque de realidade e por conta das muitas reações que desperta. A situação é dramática, todo mundo sabe. E fica ainda pior quando ninguém parece empenhado, verdadeiramente, em resolver a questão. Há os querem simplesmente eliminar os viciados, há os que defendem a internação compulsória, e ainda os que defendem o direito de ir e vir dos cracudos. De quem é ameaçado por eles, nos pontos de ônibus, no dia a dia das cidades não aparece ninguém para defender.

Psiquiatras, psicanalistas, antropólogos e dão entrevistas, defendem teses, debatem e criticam as soluções propostas. As autoridades apresentam propostas estapafúrdias que também só servem para alimentar ainda mais a discussão. Ou alguém realmente acredita que armas não letais e sprays de pimenta vão resolver esta questão? Ou simplesmente esconder os viciados, empurrar pra bem longe dos nossos olhos vai solucionar a situação? Ontem, num debate numa emissora de radio ouvi gente indignada dizendo que usaria a violência física, tipo olho por olho dente por dente, se um cracudo ameaçasse sua família ou seu veículo.

Mesmo sem apoiá-los como não compreender o sentimento deles? O medo é cada vez mais evidente e, pelos relatos que me chegam, as reações também podem fugir de controle a qualquer momento. E, antes, que vire uma guerra ou ocorra uma chacina é preciso achar uma saída. Esta situação não começou ontem, começou há tempos e ninguém levou a sério. E a questão crack me lembra quando o mosquito da dengue provocou as primeiras epidemias, nos anos noventa. Antes de fazer campanha, de encarar os fatos e buscar soluções acadêmicas, científicas ou educacionais para controlar o tal mosquito, discutiu-se, durante muito tempo se o mosquito era municipal, estadual ou federal. E perdeu-se, do mesmo jeito que está se perdendo agora, muito tempo antes de começar a atacar o problema.

Se, pelo menos, as autoridades se juntassem para buscar uma solução real, a curto, médio e longo prazo, a gente poderia atravessar esta fase imaginando que daqui a um tempo, mesmo que não seja o tempo ideal, teríamos uma solução decente e humana na tentativa de recuperação dos viciados e ,ao mesmo tempo, buscar um jeito de impedir que novas vítimas ficassem comprometidas com esta droga maldita, barata e, pelo que estamos vendo, muito fácil de conseguir. Precisamos ser rápidos porque enquanto todos discutem e opinam já apareceu uma nova droga, que mistura crack com maconha e, tudo leva a crer que a situação vai piorar.

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2 respostas para Leda Nagle: O crack e o tempo

  1. Leila Santos. disse:

    Em relação a matéria( O Crack e o Tempo) da jornalista Leda Nagle,vou além do mosquisto…Também não podemos esquecer do episódio da “Chacina da Candelária”,onde os “incomodados”acharam melhor resolver “o tal problema” de maneira que todo o mundo voltou os olhos para o Brasil.Longe de nós que um episódio como este venha se repetir,mas estamos caminhando para esta triste realidade,onde podemos assistir em noticiários recentes fatos claros.Fala-se muito e como sempre,age-se pouco.É preciso qualificar pessoas para lhe dar com o problema.As prefeituras não podem cruzar os braços e esperar que o governo estadual e federal façam o que elas podem fazer de imediato.Temos ótimos profissionais na área de DQ que podem qualificar outros profissionais;pessoas honestas que amam o ser humano,mesmo com suas fraquezas e limitações.

  2. Alexandre de S. Cruz disse:

    Leda Nagle tem razão. Há uma perplexidade geral.
    Entre a ação punitiva e a de tratamento há os que consideram qualquer tratamento uma medida punitiva. Mas o fato é que a droga afeta a motivação o pensamento e por conta disso também o discernimento. Uma criança de 13 anos não “opta”, de forma adulta. Não tem maturidade ou meios de avaliar a consequência imediata ou futura dos seus atos. O meio também pode não oferecer outras alternativas. A complacência pode ser uma alternativa cruel e violenta de entrega da criança a um meio corroído. Alivia a consciência de médio prazo daquele que vê os direitos humanos sem ver a permissão passiva à violência contra a criança e contra a mulher. Uma parte importante das pessoas da antiga cracolândia era composta por mulheres grávidas e crianças. O percentual assustava somando apenas grávidas e crianças. A violência à criança que é lesada é tolerada em meio a uma discussão sobre o direito dos adultos.. A maior parte destes adultos, é verdade, iniciou o uso nos mesmo 13 anos. Na desculpa geral se diz que a violência é uma dinâmica do sistema, mas a explicação não soluciona absolutamente nada, é apenas mais uma explicação, enche páginas.
    O intelectual que faz o uso médio da droga que acha ser mais branda, termina inadvertidamente colocando o escudo humano da massa de miseráveis na defesa de seus próprios direitos. No fundo a crueldade parece perpetuada no estado de origem colonial. Como sempre, a violência “tem que acabar ” mas em meio a toda sorte de teorias, mais fracos entre mais fracos vêm toda sorte de situações serem perpetuadas.
    A frase solta do “pedimos uma providência” se mistura com o que está acima descrito. É preciso agir.

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