Fumar maconha 5 vezes na juventude já aumenta risco de psicose

Fumar maconha pode não ter os mesmos efeitos para todo mundo e, quando o início do hábito começa na adolescência, é ainda mais prejudicial.

E não precisa de muito: fumar cannabis apenas cinco vezes na vida, quando o indivíduo ainda é adolescente, aumenta os riscos de desenvolver psicose — desordem mental que faz com que  a pessoa perca o contato com a realidade. É o que atestam novas descobertas lideradas por pesquisadores finlandeses, da Universidade de Oulu.

Tais estudos apoiam uma série de evidências que mostram que, consequentemente, a cannabis pode até aumentar o risco de suicídio.

“Nossas descobertas estão em consonância com as visões atuais sobre o uso pesado de cannabis, particularmente quando iniciadas em uma idade precoce, estando ligada a um risco aumentado de psicose”, comentou um dos pesquisadores do trabalho publicado no  The British Journal of Psychiatry. 

Especialistas afirmam um estudo nacional inglês, divulgado há dois anos, mostrou que o consumo de skunk (variação da cannabis com maior concentração de substâncias psicoativas) entre os jovens ingleses aumentou bastante e, tal fato, já está associado a pelo menos 1/4 de novos casos de algum tipo de psicose da população.

Detalhes do estudo:
Mais de 6.000 voluntários entre 15 e 30 anos foram acompanhados para avaliar o risco de doença. Os números estimam que cerca de 1% da população sofra de psicose, o que pode causar delírios, como ouvir vozes e levar a graves dificuldades.

Um estudo paralelo, que envolveu o estudante de doutorado Antti Mustonen, mostrou uma ligação entre fumar cannabis e progressão do desenvolvimento de psicose.

Mustonen, que trabalhou ao lado dos especialistas de Cambridge e Queensland, acrescentou: “Se possível, devemos nos esforçar para evitar o uso precoce da cannabis”.

Cigarro ligado à psicose
Um estudo separado, publicado na Acta Psychiatrica Scandinavica, mergulhou na ligação entre fumar cigarros e psicose. No trabalho, pesquisadores mostram dados de adolescentes que fumaram em média dez cigarros por dia terem mais chances de sofrerem com psicose.

Tal risco também é aumentado se o tabagismo começar antes dos 13 anos, de acordo com a pesquisa, liderada pelo professor Jouko Miettunen. O profissional  explicou que os achados eram verdadeiros mesmo quando contabilizavam outros fatores que aumentavam o risco, incluindo histórico familiar da doença.

“Com base nos resultados, a prevenção do tabagismo adolescente provavelmente terá efeitos positivos sobre a saúde mental da população na vida adulta”, afirmou.

Ian Hamilton, professor de saúde mental na Universidade de York, disse à publicação MailOnline que tais achados eram “preocupantes” e o contrário também acontecia.

“Pessoas com problemas de saúde mental são mais propensas a fumar.  “Este estudo sugere que isso não é um acidente, pois fumar parece aumentar o risco de desenvolver sérios problemas de saúde mental, como psicose”, acrescentou.

Com DailyMail

Fumar maconha 5 vezes na juventude já aumenta risco de psicose

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Neuroscience of Addiction: Relevance to Prevention and Treatment

Nora D. Volkow, M.D., Maureen Boyle, Ph.D.

Addiction, the most severe form of substance use disorder, is a chronic brain disorder molded by strong biosocial factors that has devastating consequences to individuals and to society. Our understanding of substance use disorder has advanced significantly over the last 3 decades in part due to major progress in genetics and neuroscience research and to the development of new technologies, including tools to interrogate molecular changes in specific neuronal populations in animal models of substance use disorder, as well as brain imaging devices to assess brain function and neurochemistry in humans. These advances have illuminated the neurobiological processes through which biological and sociocultural factors contribute to resilience against or vulnerability for drug use and addiction. The delineation of the neurocircuitry disrupted in addiction, which includes circuits that mediate reward and motivation, executive control, and emotional processing, has given us an understanding of the aberrant behaviors displayed by addicted individuals and has provided new targets for treatment. Most prominent are the disruptions of an individual’s ability to prioritize behaviors that result in long-term benefit over those that provide short-term rewards and the increasing difficulty exerting control over these behaviors even when associated with catastrophic consequences. These advances in our understanding of brain development and of the role of genes and environment on brain structure and function have built a foundation on which to develop more effective tools to prevent and treat substance use disorder.

AJP in Advance (doi: 10.1176/appi.ajp.2018.17101174)

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Director of drug abuse institute offers words of caution on marijuana

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Dr. Nora Volkow, director at the National Institute on Drug Abuse: “When you legalize [drugs], you create an industry whose purpose is to make money selling those drugs.”

Dr. Nora D. Volkow, director of the National Institute on Drug Abuse, was in Boston on Thursday to speak at a symposium sponsored by Boston University’s Clinical and Translational Science Institute and Boston Medical Center’s Grayken Center for Addiction. Before her talk, she sat down with the Globe to talk about marijuana legalization and the opioid crisis. Here are edited excerpts:

 Dispensaries that sell legal marijuana will soon open in Massachusetts. What are your thoughts on pot legalization?

The greatest mortality from drugs comes from legal drugs. The moment you make a drug legal, you’re going to increase the number of people who get exposed to it, and therefore you increase the negative consequences from its use. When you legalize, you create an industry whose purpose is to make money selling those drugs. And how do you sell it? Mostly by enticing people to take them and entice them to take high quantities.

 But isn’t marijuana much safer than the other legal drugs, alcohol and tobacco? Can you die from marijuana?

You can die from marijuana if you’re intoxicated and driving a car. I don’t know that it is safer. It depends on what stage in your life you are.

For example, if you’re a teenager, marijuana is much more dangerous than nicotine, because it is likely to interfere with the development of your brain. Marijuana dumbs you down. When you’re a teenager and your job in life is to learn, then to slow that down puts you at tremendous jeopardy. Nicotine will not do that. Of course you’ll pay a price when you’re at 60 years of age and you may end up with lung cancer. But how do you determine what is worse? Dropping out of school, when you’re 16 or 17, that’s one of the predictors of poor health outcomes. It’s not as simple as people like to make it.

 What about the medicinal uses of marijuana?

We have evidence for its benefit for certain conditions, such as the painful muscle contractions that occur with multiple sclerosis. But there is much more work to be done. There hasn’t been a large enough study to determine: Are the effects larger than a placebo, do you become tolerant, and how should you be managing it? When you smoke, it’s very difficult to control how much of the active ingredient you inhale.

We have gone into practices that are not supported by the evidence, like the management of chronic pain. We don’t want to give inadequate solutions to patients. We owe it to them to actually do the studies, in order to understand what may be potential benefits or harms.

 Why do people become addicted, and how can they recover?

Some individuals have a genetic vulnerability. Others don’t have the vulnerability but they are brought up in an environment that is very, very stressful — the parent is in jail or the mother neglects them. That social deprivation component affects how the brain develops.

We have medications [for opioid addiction] that are very useful, that improve outcomes significantly, but they are vastly underutilized. Medication is a tool that significantly improves the likelihood of that person being able to recover but it will require that there is a change in the system that will allow that person to go back to work or go back to school or to have the social support interactions that are necessary for all of us to succeed.

 Unfortunately, we’ve made addiction a very stigmatizing, isolating condition that removes that social support. Do you think addiction will always be with us?

Addiction can be addressed, but that will require that we make significant changes to the social structure. Our culture has one of the highest rates of addiction in the world. It’s telling you that there’s something in the social system, culture, economics, that is driving access to drugs.

More and more states are legalizing marijuana; we’re going to have more people become addicted to cannabis. We have to figure out how do we prevent that from happening.

Felice J. Freyer can be reached at felice.freyer@globe.com. Follow her on Twitter @felicejfreyer.

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MENSAGEM DE DAVID UIP, EX-SECRETÁRIO DE SAÚDE DO ESTADO DE SÃO PAULO

Mensagem de David Uip, Ex-Secretário de Saúde do Estado de São Paulo

Amigos, minha trajetória profissional tem sido marcada por grandes desafios, que me movem e motivam.

Talvez o principal deles, até aqui, tenha sido comandar, ao longo dos últimos quatro anos e sete meses, a maior secretaria de Saúde do Brasil.

O Sistema Único de Saúde completa, em 2018, 30 anos desde sua concepção, e é, sem dúvida, um dos maiores projetos sociais já implantados em todo o mundo.

Foi uma honra servir ao meu Estado e poder ter contribuído para o aprimoramento das políticas públicas de saúde, fortalecimento da assistência e expansão dos serviços oferecidos à população de nosso estado.

Isso não seria possível sem a participação ativa, incansável e absolutamente comprometida dos servidores, funcionários indiretos, coordenadores, diretores, assessores, parceiros, enfim, de todos aqueles que integram o time da SES-SP, em seus diferentes níveis, bem como a imprescindível colaboração dos municípios paulistas.

O SUS é complexo, dinâmico e ainda trilha o caminho de sua efetiva consolidação.

O Estado de São Paulo contribui de forma expressiva para isso, realizando 40% do atendimento de media e alta complexidade, 40% de todos os transplantes de órgãos e mais de 30% das ressonâncias magnéticas e tomografias computadorizadas da rede pública brasileira. Em média, quase três pacientes de outros estados são internados por hora em hospitais do SUS paulista. Por dia são 10,7 mil atendimentos ambulatoriais para pacientes que residem fora de São Paulo, segundo os registros oficiais do DataSUS.

Apesar dos inúmeros desafios que a saúde ainda precisa superar, posso dizer que avançamos, a despeito do Brasil ter vivido uma das mais graves crises financeiro-econômicas da sua história. Durante o período, São Paulo deixou de arrecadar 22 bilhões de reais.

O saldo, desde setembro de 2013, quando assumi o cargo de secretário, a convite do governador Geraldo Alckmin, é de 13 novos hospitais estaduais entregues à população paulista e 9 novos AMEs (Ambulatórios Médicos de Especialidades). Quarenta AMEs passaram a funcionar como “AMEs Mais”, oferecendo, além de consultas com especialistas e exames de apoio diagnóstico, cirurgias de média complexidade.

Obras de reforma e ampliação vêm propiciando a modernização de hospitais de referência, como o Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, do Instituto Emílio Ribas e do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia.

Ao todo, as obras de construção, reforma e ampliações de unidades de saúde geraram nesses quatro anos e sete meses mais de 30 mil novos empregos. Até o final de 2018, dois outros hospitais serão entregues a população de São Paulo – Serrana e Bebedouro.

A Rede Hebe Camargo de Combate ao Câncer foi consolidada, passando a integrar 76 unidades de saúde conectadas à regulação estadual (Cross), com novos serviços de radioterapia entregues em Araçatuba, Mogi das Cruzes, Santos, São José do Rio Preto, Presidente Prudente e Guarulhos, além da capital paulista.

O Programa Recomeço, de combate à dependência química, multiplicou por seis o número de leitos para tratamento de casos graves e agudos, oferecendo inequívoca ajuda aos usuários de crack, álcool e outras drogas que antes não tinham a quem recorrer.

Uma parceria inédita da Secretaria com o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) levantou recursos da ordem de R$ 826 milhões para a realização de obras de construção ou reforma de 164 unidades de saúde em cinco regiões do Estado, com benefícios a 71 municípios, incluindo dois novos hospitais regionais, um em Registro e outro em Caraguatatuba.

A PPP da Saúde, também inédita no Estado, permitiu a entrega em tempo recorde de dois novos hospitais regionais, em Sorocaba e em São José dos Campos, em um novo modelo de gestão que alia experiência administrativa e assistencial. No mesmo sistema, serão iniciadas as obras do Grande Hospital da Mulher, na Nova Luz, no centro da cidade de São Paulo.

O Estado de São Paulo, desde 2013, ampliou substancialmente o auxílio financeiro às santas casas e hospitais filantrópicos, por meio de um programa de repasses extra-SUS que visa combater o subfinanciamento federal da saúde e, permitir, desta forma, que essas instituições ganhem fôlego necessário para atender à população.

Ao mesmo tempo, não descuidamos da prevenção e promoção da Saúde. Com o programa “Mulheres de Peito”, quatro carretas itinerantes percorrem desde 2014 os quatro cantos do Estado de São Paulo oferecendo, gratuitamente e sem necessidade de pedido médico, mamografias, ultrassons e biópsias para rastrear o câncer de mama em mulheres e encaminhar os casos suspeitos para acompanhamento e tratamento nos serviços de referência. Adicionalmente, a Secretaria oferta um 0800 que agenda mamografias, também sem necessidade de pedido médico, no mês de aniversário das mulheres, em um dos 200 serviços com mamógrafo no SUS de São Paulo.

Para os homens foi implantado o programa “Filho que AMA leva o Pai ao AME”. Vinte e cinco AMEs oferecem, aos sábados, consultas e exames preventivos nas áreas de cardiologia e urologia, que podem ser marcados por uma central telefônica.

Em 2017 a mortalidade infantil atingiu no Estado de São Paulo seu menor nível, com 10,57 óbitos de crianças menores de um ano a cada mil nascidas vivas, segundo dados preliminares da Fundação Seade. Também no ano passado São Paulo obteve recorde histórico do número de doadores de órgãos, com 1.014 doações.

Por meio do programa raio-x, o Estado está passando um pente-fino nos hospitais públicos, escolhidos por sorteio, para verificar como está sendo aplicado cada centavo e como os custos são controlados, por setor. Desde 2015 funciona na Secretaria da Saúde um Núcleo de Controladoria cujo objetivo é combater o desperdício e a má gestão, além de atuar para coibir fraudes. A centralização das compras de próteses, adotada em 2016, permitiu que o governo reduzisse pela metade os valores gastos com a aquisição dos materiais, utilizados em cirurgias. Além disso, uma parceria com o Ministério Público e a maior aproximação com juízes e desembargadores têm ajudado a reduzir o gasto com a chamada “judicialização” da Saúde, evitando condenações a partir do fornecimento ao Judiciário, pelo gestor estadual, de informações sobre as opções terapêuticas disponíveis no SUS. Em 2017 houve queda de 16% no número de condenações judiciais contra a SES-SP.

Não poderia deixar de destacar o consistente trabalho de combate às arboviroses, por meio de um programa inédito de pagamento de diárias extras aos agentes municipais, que permitiu ampliar o número de visitas casa a casa, inclusive aos finais de semana, para identificação e remoção do Aedes aegypti, fazendo com que o número de casos de dengue no Estado despencasse 99% entre 2015 e 2017. A fábrica de vacinas contra a dengue do Instituto Butantan está em fase final de obras e, com o avanço dos testes clínicos em humanos, também em sua última etapa com 17 mil voluntários, o Brasil ganhará uma vacina segura e eficaz para imunizar sua população.

Adicionalmente, devo mencionar o esforço heroico das áreas de controle de doenças e de endemias que, por meio da identificação dos corredores ecológicos, monitorou a circulação e avanço do vírus da febre amarela pelo Estado de São Paulo, possibilitando a adoção de medidas preventivas como a intensificação da imunização dos paulistas em diferentes regiões, com mais de 14 milhões de doses aplicadas entre 2017 e os três meses iniciais de 2018, o dobro em relação ao período entre os anos de 2007 e 2016.

Agradeço a todos os servidores da Secretaria de Estado da Saúde, desde os que ocupam cargos de comando até aos que lidam, na ponta, com a assistência aos cidadãos. Aos diretores de hospitais, ambulatórios, centros de referência, institutos, fundações, autarquias e Organizações Sociais de Saúde. Aos diretores regionais, coordenadores e assessores. Aos amigos do Conselho Estadual de Saúde, Conselho dos Secretários Municipais de Saúde, Federação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos, Conselho Nacional dos Secretários de Saúde e Conselho Superior de Gestão em Saúde, composto de inseparáveis amigos. Meu muito obrigado aos parlamentares e a todos os profissionais da imprensa.

Por fim, o meu muito obrigado ao nosso querido Governador Geraldo Alckmin – sempre estaremos juntos e a todos os seus assessores, aos meus amigos Secretários de Estado e a minha iluminada família, solidária e paciente a despeito da constante ausência

Deixo a Secretaria, mas não abandono as boas causas. Continuo à disposição para contribuir com o avanço das políticas públicas de saúde, em São Paulo e no Brasil. Principalmente àquele que for escolhido para me suceder – poderá contar comigo no que entender necessário. A área demanda um constante equilíbrio entre a austeridade na gestão da coisa pública e a pretensão humana de eliminar a dor e o sofrimento dos assistidos. Desejo-lhe sabedoria e boa sorte. Agora, retomo a vida acadêmica, como diretor-geral da Faculdade de Medicina do ABC, onde me formei, e continuarei atendendo aos meus pacientes. Cuidar de gente é o que sei e gosto de fazer. Vocês me ajudaram muito.

Muito obrigado, e até breve.

 

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ALCOOLISMO E DEPRESSÃO

Alcoolismo e depressão

*Por Adriana Moraes 

O uso abusivo de álcool é um grave problema de saúde pública. A depressão é comum entre os indivíduos que bebem e pode ter fator decisivo na busca de tratamento. Os problemas relacionados ao uso de álcool e depressão são as duas doenças psiquiátricas, isoladamente, mais comuns encontradas na população, também estão entre as doenças que mais custam aos cofres públicos.

Pela grande capacidade de o álcool produzir sintomatologia semelhante a da depressão e também de mascará-la, o diagnóstico desta deve ser feito com cautela e de preferência após um período de abstinência.  Em geral, a depressão antecede o surgimento da dependência do álcool, principalmente em mulheres, porém, na maioria das vezes, é difícil determinar o transtorno primário e o secundário, visto que há interferência entre os transtornos depois de instalada a comorbidade. [1]

9% dos idosos do país consomem álcool diariamente

O Jornal Folha de S. Paulo em 21/01/2018 na matéria “9% dos idosos do país consomem álcool diariamente” informou dados da Pesquisa Datafolha inédita mostrando que quase um em cada dez homens idosos brasileiros (9%) bebe todos os dias, cinco vezes a média do país (2%) e o dobro do percentual de beberrões (4%). Entre as idosas, 81% não bebem, contra 57% dos idosos, o que confirma a tendência na população em geral de as mulheres serem menos expostas ao álcool que os homens (63% delas não bebem, contra 6% dos homens). Para a psiquiatra Dra. Ana Cecília Marques, o idoso alcoólatra é um “paciente invisível”, que muitas vezes desenvolve a dependência após a aposentadoria, divórcio ou a viuvez. O uso do álcool também pode desencadear ou potencializar distúrbios psiquiátricos, como a depressão, muito associada aos suicídios entre os idosos. [2]

O álcool sendo um depressor do sistema nervoso central aumenta os riscos do dependente químico ter depressão?

dr hammer

Definir se uma pessoa está infeliz ou se está com depressão pode ser muito difícil quando ela está bebendo. Importante relembrar um trecho do texto do psiquiatra Dr. Hamer Palhares no site da UNIAD no qual o médico respondeu a seguinte pergunta: “O álcool sendo um depressor do sistema nervoso central aumenta os riscos do dependente químico ter depressão”?

Dr. Hamer explicou que o álcool é considerado uma droga “suja”, sob o ponto de vista de que age em diversos sistemas neurotransmissores no cérebro, tais como o sistema noradrenérgico, serotoninérgico, gabaérgico, glutamatérgico, opióide, etc. Quando dizemos que o álcool é depressor do sistema nervoso central estamos afirmando que ele tem uma ação sedativa intrínseca, a qual se exerce por sua ação principal no sistema GABA (ácido gama amino butírico, o qual é a principal molécula com efeito inibitório no sistema nervoso central). Contudo, é bom lembrar que os efeitos do álcool variam conforme a frequência, intensidade de consumo e quantidade ingerida. No uso continuado, ocorre uma alteração nítida de humor, cursando geralmente com maior irritabilidade e sintomas depressivos. Um estudo evidenciou que pacientes que paravam de beber, após uma semana, apresentavam sintomas depressivos suficientes para preencher o diagnóstico de depressão em 42% dos casos. Contudo, mesmo sem serem medicados ou receberem psicoterapia, após mais três semanas, ou seja, com um mês de abstinência, apenas 6% dos casos permaneciam depressivos. Isto sugere que a maior parte dos sintomas depressivos e dos pacientes que apresentam-se deprimidos e que abusam de álcool podem melhorar com a simples abstinência e que não abordar o consumo de substâncias seria perder uma ótima oportunidade de intervir de forma efetiva, simples e sem a necessidade de medicamentos. [3]

*Adriana Moraes – Psicóloga da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina) – Especialista em Dependência Química – Colaboradora do site da UNIAD (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas).

Referências:

[1] Dependência Química: prevenção, tratamento e políticas públicas / Alessandra Diehl – Daniel Cruz Cordeiro – Ronaldo Laranjeira – Porto Alegre: Artmed, 2011.
[2] http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2018/01/1951983-9-dos-idosos-do-pais-consomem-alcool-diariamente-diz-datafolha.shtml
[3] http://www.uniad.org.br/interatividade/noticias/item/25171-confira-a-entrevista-exclusiva-com-o-psiquiatra-dr-hamer-palhares-sobre-depress%C3%A3o-e-depend%C3%AAncia-qu%C3%ADmica

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POLÍTICAS ERRADAS LEVARAM PAÍS À EPIDEMIA DE DROGAS

Políticas erradas levaram país à epidemia de drogas

Secretário Nacional analisa votação que endureceu orientação sobre narcóticos no Brasil

Brasília, 9/3/18 – No último dia 1º de março, por 16 dos 22 votos dos conselheiros presentes, o Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (Conad) aprovou a resolução nº 1/2018, alterando o entendimento que até então norteava as ações do governo federal. A partir dessa aprovação, o Estado passa a adotar a linha que prega a abstinência como fim. Ou seja, cabe ao Governo desestimular e enfrentar o uso de drogas pela população; oferecer tratamento terapêutico para os dependentes, de forma a incentivá-los a largar o consumo; e reprimir a venda energicamente.

O secretário Nacional de Políticas sobre Drogas, Humberto Viana, concedeu a seguinte entrevista para esclarecer as mudanças e fazer um balanço das posições do governo quanto às várias questões que permeiam o tema.

O Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas aprovou a resolução n° 1/2018, que orienta o governo a levar em conta também a linha que prega a abstinência na elaboração das políticas públicas. Concretamente, o que vai acontecer daqui para frente?

Secretário Humberto Viana – Concretamente, deixamos de focar no que tivemos nos últimos 15 anos, que era basicamente políticas de redução de danos. Hoje, apontamos para a linha da abstinência e isso muda completamente o foco. Tanto para quem defende a abstinência, quanto para quem defende a redução de danos, há subdivisões. Então, unanimidade não teremos. Agora, certamente, nos últimos quinze anos a política não trouxe os resultados esperados, que eram a redução do consumo e impedir o tráfico. Hoje, vamos partir para uma linha que é mais efetiva contra o uso de drogas, pois as ações serão medidas e avaliadas.

Em resumo, a gente pode dizer que o governo brasileiro adota a linha da abstinência em detrimento da redução de danos?

Secretário Humberto Viana – Não, não é isso. Passamos a adotar a abstinência como meta da política, mas não abandonamos ações de redução de danos. Reconhecemos os avanços, porém os problemas persistem. A perspectiva da abstinência parte do pressuposto de que é possível intervir de maneira que as pessoas se abstenham de usar drogas. Termina sendo o último objetivo da política. A resolução prevê a redução de danos também. Porém, é um dos instrumentos, dos diversos instrumentos necessários para promover como objetivo final a abstinência.

Falando de prevenção. Como é uma política de prevenção para redução de danos e como é para a abstinência? Qual é a diferença?

Secretário Humberto Viana – De uma forma geral, a redução de danos não se preocupa tanto com a prevenção. Ela parte do pressuposto de que as pessoas vão usar drogas e a política vai tentar reduzir os danos em uma utilização natural de drogas por parte da sociedade. Já a abstinência vai buscar impedir o uso de drogas. Parte-se do pressuposto de que é possível prevenir, tratar e reprimir o uso, a fabricação e o tráfico de drogas. No modelo da redução de danos não adianta tanto o estado intervir, cabe ao estado reduzir os danos por uma utilização de drogas que inevitavelmente vai ser disseminada na sociedade.

Você pode exemplificar como seria isso na pratica?

Secretário Humberto Viana – Antigamente, tinham cartilhas nos programas de prevenção que indicavam, por exemplo, doses de álcool cujo consumo seria seguro por parte dos adolescentes. Ou seja, você partia do pressuposto de que os jovens já usam álcool e não tem alternativa. Tem linhas de redução de danos que defendem que se a pessoa for usar cocaína, utilize de alguma forma que seja mais segura. Se a pessoa for utilizar ecstasy, que ela consuma bastante água para evitar a hipertermia e assim por diante.

Em uma análise comparada em termos internacionais, que país usa majoritariamente uma linha ou outra? Hoje, nos Estados Unidos, em vários estados, não é mais crime consumir maconha para fins recreativos e, diante disso, diz-se que a tendência internacional é pela liberação da maconha para fins recreativos. O Brasil, ao adotar esta nova diretriz, está indo contra essa tendência. Isso é verdade ou é um mito?

Secretário Humberto Viana – Eu arriscaria que é um mito. Qual é a forma que deu certo? Você tem aí os países mais referenciados. Primeiro é Portugal, país de maior referência para estudar a legalização do uso de drogas. Aí você tem a Suécia… eles começaram com a redução de danos, não deu certo. Depois colocaram uma política de linha dura, a abstinência. Hoje, houve uma redução considerável no consumo. Então, não tem uma fórmula definida. Nenhum país faz uma política apenas com ampla ênfase em redução de danos para todas as drogas. É recomendável que se faça composição entre políticas de redução de danos, políticas de redução de oferta e políticas de redução de demanda. É necessário o equilíbrio entre essas ações para você ter uma política de drogas efetiva de alguma forma. O problema da política anterior é que ela dava ênfase excessiva à redução de danos.

Nas campanhas sobre drogas durante a prevalência da redução de danos, o governo também dizia que não era legal usar drogas…

Secretário Humberto Viana – Na prática, a ênfase excessiva na redução de danos mascarava um movimento pró-legalização das drogas. O ministro Osmar Terra fala e eu concordo. Tem documentos, tem cartilhas feitas pelo governo brasileiro que propõe argumentos pró uso de drogas, inclusive. A gente tem uma cartilha que tem os prós e os contras do uso da maconha, por exemplo.

Hoje, temos usuários e traficantes encarcerados. Como vai ficar?

Secretário Humberto Viana – Esse é um assunto que já passou aqui em reuniões de trabalho e que houve o entendimento tanto da área jurídica, quanto da própria secretaria de que competirá ao Congresso Nacional identificar de forma clara –  por exemplo em termos de dosimetria – o que é tráfico e o que é consumo. Então, nesse ponto, não temos, hoje, uma posição, porque não é nossa competência. Não legislamos sobre isso. Entendemos que não se deve isolar nenhuma tentativa de diminuir o consumo, nem por meio da redução de danos, nem da abstinência. No Congresso, tem parlamentares que defendem a redução de danos e outros que defende a abstinência. Você vai encontrar quem defende os dois. A melhor política é não isolar qualquer uma delas.

O que dizer sobre a relação entre drogas e violência? Proibi-la não seria também incitar a violência do tráfico?

Secretário Humberto Viana – São vários ensaios. Têm realmente dados que comprovam que quando houve repressão aumentaram os índices de violência e criminalidade. E tem dados que mostram o contrário, que reprimiu e diminuiu. Para um país como o Brasil, que é um país continental, não podemos chegar e dizer que a melhor forma é essa ou aquela. Essas experiências não existem só aqui no Brasil, existem em todos os lugares do mundo. No Uruguai, que trouxe o modelo de uso para fins recreativos, o que está acontecendo? O índice de homicídios caiu num primeiro momento e depois voltou a crescer. Isso na verdade é muito difícil de categorizar. O governo opta por uma linha de endurecimento. Flexibilizamos e ensaiamos tudo o que podia, mas não deu certo porque temos uma proliferação da dependência de drogas no país.

Voltando ao tema da violência, que cruzamentos temos quanto ao uso de drogas e as estatísticas de violência nas cidades?

Secretário Humberto Viana – Você tem estudos bem interessantes que mostram a correlação de uso de crack e taxas de homicídio. Nova York, por exemplo, na década de 80, chegou a taxas de homicídios altíssimas quando houve o aumento do uso de crack naquela cidade. Todo o esforço que foi feito por parte da prefeitura no sentindo de enfrentar o tráfico, terminou reduzindo as taxas de homicídio. No Brasil, de certa forma, quando a gente olha segurança pública, nas cidades onde o crack tem entrado, as taxas de homicídio também aumentaram. O crack quando chegou no Brasil se instalou primeiro em São Paulo e houve aumento das taxas de homicídio – cerca de 30 homicídios a cada 100 mil habitantes na década de 90. Quando o crack começou a ir para outras cidades do Nordeste e do Sudeste, os órgãos de segurança observaram um aumento drástico nas taxas de homicídio do país de maneira similar aos estudos que foram feitos nos Estados Unidos.

Os EUA estão fazendo…

A Califórnia abriu o maior mercado do mundo de maconha. Eles vão ter uma arrecadação de aproximadamente U$ 1 bilhão por ano. Então, se for analisar por aí, trata-se de um grande negócio. Quem é hoje o grande investidor desse grande negócio?

Mas o canabidiol tem ou não tem efeitos medicinais?

Secretário Humberto Viana – O canabidiol é uma entre 113 outras substâncias encontradas na maconha. Ele, especificamente, não causa alterações na consciência, o que causa são outras substâncias encontradas na maconha. Então, respondendo a sua pergunta, sim, o canabidiol tem efeito terapêutico como anticonvulsivante. Lembro que eu ouvi uma vez do ministro Osmar Terra que existe uma substância chamada bradicinina, que é o princípio ativo de vários remédios para pressão alta. Essa substância é retirada do veneno da jararaca. Mas não é por isso que se vai beber uma colher do veneno, assim como não é necessário fumar maconha para fazer uso do canabidiol.

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Fonte: Justica.gov.br

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USP Talks #9: Maconha, canabinoides e sociedade | Ronaldo Laranjeira

A regulamentação do uso terapêutico da maconha e dos seus derivados — os chamados canabinoides — é um dos temas mais polêmicos da atualidade. Evidências sugerem que substâncias presentes na planta podem aliviar os sintomas de diversas doenças, como câncer, epilepsia, esclerose múltipla e uma série de transtornos psiquiátricos.

Ronaldo Laranjeira assume uma postura mais crítica sobre a legalização da maconha no Brasil.

 

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