TRATAMENTO PARA USUÁRIOS DE MACONHA

Tratamento para usuários de maconha

*Por Adriana Moraes

A cannabis é a droga psicoativa ilícita mais usada no mundo, a estimativa da OMS (Organização Mundial de Saúde) é de que haja 181,8 milhões de usuários da droga em suas preparações mais comuns, como maconha e haxixe, com idade entre 15 e 64 anos no mundo. [1]

A terapia cognitivo-comportamental (TCC) tem sido utilizada com sucesso no tratamento de problemas de uso de substâncias psicoativas, especialmente na prevenção de recaída auxiliando o usuário de maconha a identificar e lidar com as situações de alto risco perante a substância. Pode ser definida como um conjunto de intervenções semiestruturadas, objetivas e orientadas para metas, considerando fatores cognitivos (e seus desdobramentos) e comportamentais, é tida como uma ferramenta importante para o tratamento da dependência em si e também para a reestruturação de toda a vida do indivíduo.

As drogas alteram o sistema nervoso central (SNC) do individuo, mudando seu humor, percepção, estado emocional, comportamento e aprendizagem. O THC (principal componente ativo da maconha) afeta primeiramente o funcionamento do sistema cardiovascular e nervoso central. O aumento da pulsação é seu efeito fisiológico observado com mais frequência, apesar de a pressão sanguínea ser pobremente afetada. Os vasos sanguíneos da córnea se dilatam, resultando em olhos avermelhados (frequentemente observados em pessoas que acabaram de fumar maconha). Os usuários costumam referir aumento do apetite, boca seca, vertigens ocasionais e leves, náuseas. [2]

O relatório da OMS afirmou que o uso diário de cannabis (maconha) durante anos e décadas parece produzir perdas persistentes de memória e cognição, especialmente quando seu uso começa na adolescência. As evidências mostram que o uso prolongado da maconha pode acarretar alterações sutis nas “funções cognitivas superiores” da memória, atenção, organização e integração de informações complexas, que podem afetar o funcionamento no dia a dia. [3]

O efeito do THC no cérebro ocorre por meios dos receptores específicos no SNC (córtex, hipocampo, hipotálamo, cerebelo, amígdala, giro do cíngulo anterior e gânglios da base) com a ocorrência de alterações cognitivas.

Tratamento

Apesar de muitos prejuízos do consumo prevalente, são poucos os usuários de maconha que buscam tratamento. A maioria dos dependentes de maconha encontra-se no estágio da pré-contemplação, ou seja, o usuário não encara seu uso como problemático ou causador de problemas, tampouco considera algum tipo de mudança. Em geral, não busca tratamento voluntariamente, e sim por causa dos pais, família, escola, trabalho ou por encaminhamento judiciário.

No inicio do tratamento é importante que o paciente se conscientize sobre seu problema, conhecendo os efeitos da droga de abuso; que perceba a necessidade de mudar seu comportamento de uso e junto com o terapeuta se prepare para fazer essa mudança.

O tratamento do usuário de maconha acontece em etapas. Primeiro deve-se informar ao paciente sobre a substância, já que muitos não conhecem seus efeitos, seus prejuízos. Em seguida deve-se motivar o paciente para a mudança, orientando-o para que aceite o tratamento e definindo objetivos. [3]

Alteração das funções cognitivas

A maconha vai agir principalmente nas áreas cerebrais responsáveis pela coordenação, percepção do tempo e espaço, julgamento e memória, além de agir indiretamente no sistema de recompensa cerebral. As evidências mostram que o uso prolongado da maconha pode acarretar alterações cognitivas sutis nas “funções cognitivas superiores” da memória, da atenção, organização e integração de informações complexas, que podem afetar o funcionamento do indivíduo no dia a dia. [3]

Terapia Cognitivo-comportamental (TCC)

O psiquiatra Aaron Beck desenvolveu a terapia cognitiva para o tratamento da depressão como um método estruturado, de curto prazo, orientado para o presente e dirigido para a resolução de problemas atuais, por meio da modificação do pensamento e do comportamento disfuncional, seu uso foi rapidamente estendido para diversas outras patologias, entre elas a dependência química.

De acordo coma perspectiva cognitiva proposta por Aaron Beck, o modo como uma pessoa interpreta uma situação específica influencia seus sentimentos, suas motivações e ações. Essas interpretações, por sua vez, são moldadas pelas crenças ativadas pelas situações. [3]

A terapia cognitivo-comportamental é eficaz durante o tratamento do usuário de maconha, fazendo com que o paciente perceba a necessidade de mudar seu comportamento em relação ao uso da droga. Esse modelo de tratamento concentra-se basicamente no que está acontecendo em sua vida nos momentos atuais ao invés de buscar causas no passado.

As técnicas cognitivo-comportamentais ensinam habilidades relevantes para auxiliar na redução ou cessação do consumo da substância psicoativa e capacitam o indivíduo a lidar com outros problemas, que podem afetar os resultados do tratamento.

Um dos principais objetivos da terapia cognitivo-comportamental é identificar e corrigir distorções cognitivas que geram problemas para o indivíduo e auxiliar no desenvolvimento de estratégias de enfrentamento destas situações que põem em riscos o alcance dos objetivos estabelecidos durante o tratamento.

O dependente de forma geral sente-se incapaz de desenvolver suas atividades diárias sem o uso da substância psicoativa. A TCC procura produzir mudanças no pensamento e no sistema de crenças do paciente, auxilia o paciente a ver vantagens em estar sem consumir a substância, ajudando-o a identificar as situações de alto risco em relação ao uso da maconha, fazendo-o a buscar alternativas para lidar com essas situações.

Princípios Básicos da Terapia Cognitivo-comportamental

Princípio nº 1 – A terapia cognitivo-comportamental está baseada em uma formulação em desenvolvimento contínuo dos problemas dos pacientes e em uma conceituação individual de cada paciente em termos cognitivos.
Princípio nº 2 – A terapia cognitivo-comportamental requer uma aliança terapêutica sólida.
Princípio nº 3 – A terapia cognitivo-comportamental enfatiza a colaboração ativa.
Princípio nº 4 – A terapia cognitivo-comportamental é orientada para os objetivos e focada nos problemas.
Princípio nº 5 – A terapia cognitivo-comportamental enfatiza inicialmente o presente.
Princípio nº 6 – A terapia cognitivo-comportamental é educativa, tem como objetivo ensinar o paciente a ser seu próprio terapeuta e enfatiza a prevenção de recaída.
Princípio nº 7 – A terapia cognitivo-comportamental visa ser limitada no tempo.
Princípio nº 8 – As sessões da terapia cognitivo-comportamental são estruturadas.
Princípio nº 9 – A terapia cognitivo-comportamental ensina os pacientes a identificar, avaliar e responder aos seus pensamentos e crenças disfuncionais.
Princípio nº 10 – A terapia cognitivo-comportamental usa uma variedade de técnicas para mudar o pensamento, o humor e o comportamento.

A TCC é uma terapia voltada para o problema geralmente aplicada em um formato de curto prazo. As sessões devem ser estruturadas, com agenda programada e com duração de 50 minutos a 60 minutos. Utiliza métodos de estruturação, com o estabelecimento de agenda e feedback, para maximinizar a eficácia das sessões de tratamento, ajudar os pacientes a organizar seus esforços em direção à recuperação e identificar o aprendizado.

Mais informações sobre a Terapia Cognitivo-Comportamental e Dependência Química:

https://www.uniad.org.br/interatividade/livros/item/25845-o-tratamento-da-depend%C3%AAncia-qu%C3%ADmica-e-as-terapias-cognitivo-comportamentais

livro dr ronaldo

*Adriana Moraes – Psicóloga da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina) – Especialista em Dependência Química – Colaboradora do site da UNIAD (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas).

Referências:

[1]https://nacoesunidas.org/oms-cannabis-e-droga-ilicita-mais-consumida-no-mundo-com-180-milhoes-de-usuarios/
[2] Aconselhamento em dependência química / Neliana Buzi Figlie, Selma Bordin, Ronaldo Laranjeira. 2ª ed. São Paulo: Roca, 2010.
[3] Zanelatto, Neide. A. O tratamento da dependência química e as terapias cognitivo-comportamentais: um guia para terapeutas/ Organizadores, Neide A. Zanelatto, Ronaldo Laranjeira – Porto Alegre: Artmed, 2013.

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Estudo afirma: uso de maconha por adolescentes aumenta risco de psicose

Estudos mostram que pessoas propensas a problemas mentais geralmente são mais atraídas por entorpecentes

Pessoas sadias sem histórico familiar de doença mental têm risco maior de desenvolvimento de psicose do que quem não é usuário. (//iStock)

Um estudo conduzido pela pesquisadora Patricia Conrod, professora de psiquiatria da Universidade de Montreal, no Canadá, chegou a uma conclusão preocupante: o uso de maconha por adolescentes aumenta diretamente o risco de desenvolvimento de psicose. O estudo foi publicado no início do mês de junho, pelo respeitado jornal JAMA Psychiatry.

O levantamento contou com a participação de 3.720 adolescentes da área metropolitana de Montreal que, por 4 anos, responderam a uma pesquisa anual e sigilosa via internet, na qual relatavam o uso ou não de cannabis e sintomas depsicose. O número representa 76% dos alunos da 7ª série que frequentam 31 escolas secundárias na região.  A pesquisa foi dividida em quatro períodos, com intervalo de 12 meses entre eles. No primeiro, os participantes tinham uma média de idade de 12,8 anos.

O resultado? Em todos os períodos foram identificadas, em níveis estatísticos relevantes, associações positivas entre o uso de maconha e sintomas de psicose, relatados um ano após o consumo da droga. Além disso, 86,7% dos participantes tiveram, no mínimo, dois períodos com relatos de sintomas de psicose. Já 94,4% dos adolescentes também relataram ao menos dois períodos de uso de cannabis. Tal situação demonstra-se preocupante no país, pois, segundo Conrod, pesquisas indicam que aproximadamente 30% dos estudantes mais velhos do ensino médio na província canadense de Ontário usam maconha.

A busca pela causalidade

O principal objetivo deste estudo era identificar ou descartar se o consumo de maconha estava diretamente relacionado ao surgimento posterior de sintomas da doença, em um cenário com alguns desafios. O primeiro? É durante a adolescência que geralmente começam tanto a psicose, quanto o uso de cannabis. O segundo: as informações sobre causalidade ainda são escassas. Grande parte desta situação se deve à forma como a maior parte das pesquisas sobre o tema tem sido feita até então, utilizando metodologias que promovem resultados sujeitos a questionamentos.

Para superar tais desafios, os pesquisadores usaram uma técnica complexa chamada Random Intercept Cross-Lagged Panel Model (RI-CLPM), que promove a coleta, análise e cruzamento de dados em diversos níveis.

As informações coletadas foram avaliadas em um teste de sintomas similares aos psicóticos em adolescentes, e em uma escala de seis pontos de frequência de uso de maconha. Dentre outras medidas, a técnica permitiu a análise individual das respostas dos participantes, por período e de forma geral, a comparação com o grupo e também dos perfis dos adolescentes.

Com os resultados finais em mãos, os pesquisadores puderam identificar de forma segura e individual se o aumento no consumo de maconha precede o aumento dos sintomas de psicose, e vice-versa. Foi possível inclusive diferenciar causalidade direta e associações temporais entre a droga e a doença.

É importante ressaltar que a pesquisa baseia-se em relatos dos adolescentes. Porém, os pesquisadores levaram isso em consideração, tendo estudado trabalhos anteriores, que indicam que a taxa de acerto em tais relatos varia de 80% a 100%. Além disso, a mecânica da pesquisa, totalmente confidencial e sem oferecer consequências aos jovens, proporcionou garantias aos adolescentes, que se sentiam mais à vontade para responder os questionamentos.

A importância dos resultados

Este estudo é hoje o teste mais rigoroso que se tem conhecimento sobre o assunto. A literatura médica mostra que pessoas propensas a problemas mentais geralmente são mais atraídas por entorpecentes, mas o levantamento mostra o caminho contrário – no caso da maconha, pessoas sadias que consomem a droga, mesmo sem histórico familiar de doença mental ou maior suscetibilidade aos efeitos da substância, têm um risco maior de desenvolvimento de psicose do que quem não é usuário.

A novidade chega em um momento muito importante para o Canadá, que aprovou o consumo e cultivo da droga para maiores de 18 anos a partir de outubro. Muito se fala a respeito da diminuição da criminalidade e também do valor bilionário que pode ser arrecadado em impostos com a legalização e venda de maconha. Mas estas alegações precisam ser debatidas.

No primeiro caso, creio que se trata de uma conjectura, pois não existem dados conclusivos que demonstrem que a descriminalização acabe com o tráfico. Se atualmente ele já promove um mercado paralelo de cigarro e bebidas alcoólicas (contrabandeados ou falsificados), o que o impedirá de fazer o mesmo com a maconha? O European Monitoring Centre for Drugs and Drug Addiction indica que em Portugal, que descriminalizou o consumo de drogas, o tráfico até aumentou.

Já com relação aos impostos arrecadados, fico me questionando se tal valor compensa o impacto que certamente será provocado à saúde dos usuários e, consequentemente, à rede pública de saúde. A entidade governamental norte-americana Centers for Disease Control and Prevention (CDC) estimou em 2016que o abuso de álcool, uma droga legal, custava aos contribuintes, setor industrial e cofres públicos dos Estados Unidos 249 bilhões de dólares por ano (mais de 921 bilhões de reais). Você não leu errado, as cifras são impressionantes e seguem a linha de outros levantamentos que também apontam impactos bilionários.

Com isso em mente, afirmo: medidas como essa não podem ser tomadas baseando-se em debates filosóficos. Se cercar das melhores informações, para tomar decisões abalizadas em fatos é crucial. Porém, enquanto as evidências científicas confiáveis apontam para um lado, as políticas públicas (muito afetadas por lobby político ou financeiro) seguem para outro. Não se pode brincar com a vida das pessoas, mas, infelizmente, é isso que está acontecendo.

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Estudo afirma: uso de maconha por adolescentes aumenta risco de psicose

Estudos mostram que pessoas propensas a problemas mentais geralmente são mais atraídas por entorpecentes

Um estudo conduzido pela pesquisadora Patricia Conrod, professora de psiquiatria da Universidade de Montreal, no Canadá, chegou a uma conclusão preocupante: o uso de maconha por adolescentes aumenta diretamente o risco de desenvolvimento de psicose. O estudo foi publicado no início do mês de junho, pelo respeitado jornal JAMA Psychiatry.

O levantamento contou com a participação de 3.720 adolescentes da área metropolitana de Montreal que, por 4 anos, responderam a uma pesquisa anual e sigilosa via internet, na qual relatavam o uso ou não de cannabis e sintomas depsicose. O número representa 76% dos alunos da 7ª série que frequentam 31 escolas secundárias na região.  A pesquisa foi dividida em quatro períodos, com intervalo de 12 meses entre eles. No primeiro, os participantes tinham uma média de idade de 12,8 anos.

O resultado? Em todos os períodos foram identificadas, em níveis estatísticos relevantes, associações positivas entre o uso de maconha e sintomas de psicose, relatados um ano após o consumo da droga. Além disso, 86,7% dos participantes tiveram, no mínimo, dois períodos com relatos de sintomas de psicose. Já 94,4% dos adolescentes também relataram ao menos dois períodos de uso de cannabis. Tal situação demonstra-se preocupante no país, pois, segundo Conrod, pesquisas indicam que aproximadamente 30% dos estudantes mais velhos do ensino médio na província canadense de Ontário usam maconha.

A busca pela causalidade

O principal objetivo deste estudo era identificar ou descartar se o consumo de maconha estava diretamente relacionado ao surgimento posterior de sintomas da doença, em um cenário com alguns desafios. O primeiro? É durante a adolescência que geralmente começam tanto a psicose, quanto o uso de cannabis. O segundo: as informações sobre causalidade ainda são escassas. Grande parte desta situação se deve à forma como a maior parte das pesquisas sobre o tema tem sido feita até então, utilizando metodologias que promovem resultados sujeitos a questionamentos.

Para superar tais desafios, os pesquisadores usaram uma técnica complexa chamada Random Intercept Cross-Lagged Panel Model (RI-CLPM), que promove a coleta, análise e cruzamento de dados em diversos níveis.

As informações coletadas foram avaliadas em um teste de sintomas similares aos psicóticos em adolescentes, e em uma escala de seis pontos de frequência de uso de maconha. Dentre outras medidas, a técnica permitiu a análise individual das respostas dos participantes, por período e de forma geral, a comparação com o grupo e também dos perfis dos adolescentes.

Com os resultados finais em mãos, os pesquisadores puderam identificar de forma segura e individual se o aumento no consumo de maconha precede o aumento dos sintomas de psicose, e vice-versa. Foi possível inclusive diferenciar causalidade direta e associações temporais entre a droga e a doença.

É importante ressaltar que a pesquisa baseia-se em relatos dos adolescentes. Porém, os pesquisadores levaram isso em consideração, tendo estudado trabalhos anteriores, que indicam que a taxa de acerto em tais relatos varia de 80% a 100%. Além disso, a mecânica da pesquisa, totalmente confidencial e sem oferecer consequências aos jovens, proporcionou garantias aos adolescentes, que se sentiam mais à vontade para responder os questionamentos.

A importância dos resultados

Este estudo é hoje o teste mais rigoroso que se tem conhecimento sobre o assunto. A literatura médica mostra que pessoas propensas a problemas mentais geralmente são mais atraídas por entorpecentes, mas o levantamento mostra o caminho contrário – no caso da maconha, pessoas sadias que consomem a droga, mesmo sem histórico familiar de doença mental ou maior suscetibilidade aos efeitos da substância, têm um risco maior de desenvolvimento de psicose do que quem não é usuário.

A novidade chega em um momento muito importante para o Canadá, que aprovou o consumo e cultivo da droga para maiores de 18 anos a partir de outubro. Muito se fala a respeito da diminuição da criminalidade e também do valor bilionário que pode ser arrecadado em impostos com a legalização e venda de maconha. Mas estas alegações precisam ser debatidas.

No primeiro caso, creio que se trata de uma conjectura, pois não existem dados conclusivos que demonstrem que a descriminalização acabe com o tráfico. Se atualmente ele já promove um mercado paralelo de cigarro e bebidas alcoólicas (contrabandeados ou falsificados), o que o impedirá de fazer o mesmo com a maconha? O European Monitoring Centre for Drugs and Drug Addiction indica que em Portugal, que descriminalizou o consumo de drogas, o tráfico até aumentou.

Já com relação aos impostos arrecadados, fico me questionando se tal valor compensa o impacto que certamente será provocado à saúde dos usuários e, consequentemente, à rede pública de saúde. A entidade governamental norte-americana Centers for Disease Control and Prevention (CDC) estimou em 2016que o abuso de álcool, uma droga legal, custava aos contribuintes, setor industrial e cofres públicos dos Estados Unidos 249 bilhões de dólares por ano (mais de 921 bilhões de reais). Você não leu errado, as cifras são impressionantes e seguem a linha de outros levantamentos que também apontam impactos bilionários.

Com isso em mente, afirmo: medidas como essa não podem ser tomadas baseando-se em debates filosóficos. Se cercar das melhores informações, para tomar decisões abalizadas em fatos é crucial. Porém, enquanto as evidências científicas confiáveis apontam para um lado, as políticas públicas (muito afetadas por lobby político ou financeiro) seguem para outro. Não se pode brincar com a vida das pessoas, mas, infelizmente, é isso que está acontecendo.

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Epidemia de drogas tem assinatura de liberacionistas, diz Osmar Terra

Ministro responde a pesquisadores

‘Não há exemplo de que liberação é positiva’

 

A CIÊNCIA DOS LIBERTACIONISTAS

Volto a debater a tréplica dos drs. Luís Fernando Toffoli e Sidarta Ribeiro, do lobby pró-liberação das drogas no Brasil ou –como gostam de se autodenominar– do campo “antiproibicionista“, publicada no Poder360.

Passei a me preocupar mais intensamente com a questão das drogas quando fui, por 8 anos, secretário de Saúde no Rio Grande do Sul. Entre 2003 e 2010, em especial a partir de 2006, assisti à explosão da epidemia do crack e a multiplicação exponencial de pessoas, na maioria jovens, com dependência química.

Assisti ao aumento rápido do número de famílias desestruturadas, ao aumento de casos de agressão, de acidentes e de suicídios, que eram acompanhados pela expansão também do consumo das demais drogas lícitas e ilícitas.

Ao mesmo tempo, assisti ao aumento da violência numa escala gigantesca, nunca vista antes. Da parte do governo federal, percebi a inexistência de uma resposta efetiva a essa gravíssima situação. Assim, passei a tratar –e trato– esse assunto como prioritário em termos de política pública. O encaro como médico e gestor público, com uma experiência estabelecida a partir da saúde pública.

E é incrível a desinformação oficial sobre o tema. As pesquisas feitas desde então no país, sobre as dimensões do problema, foram escassas e pouco abrangentes –ou feitas por pesquisadores que, a priori, defendem a liberação das drogas. Por isso, se esforçam para minimizar o problema. Tais pesquisas não conseguiram medir a grandeza do que estava e está acontecendo.

Não é necessário nem entender de dados estatísticos para perceber, nas ruas, a grande multiplicação de usuários de drogas nessa última década. As cracolândias a céu aberto estão crescendo em ruas e praças de todas as grandes cidades brasileiras.

A Confederação Nacional dos Municípios, por meio do seu Observatório do Crack, testemunha essa propagação epidêmica do consumo. Mostra que o consumo crescente do crack está presente hoje em todos os 5.570 municípios brasileiros –leia-se também nas áreas rurais e em quase todas as tribos indígenas.

Surpreendentemente, uma informação abrangente e desprovida de qualquer viés ideológico veio das estatísticas de auxílio-doença do INSS. Até 2006, o álcool era a maior causa de auxílio-doença por dependência química no INSS. Sem que o consumo do álcool diminuísse (até por ser uma droga legalizada e de fácil acesso), o crack o ultrapassa em número de auxílios em 2007 e, em 2013, já era quase 3 vezes maior!

Como secretário de Saúde, presidente do Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde) e deputado federal, participei da maioria dos debates nacionais sobre o tema, constatando sempre que não existia nenhuma proposta consistente do governo federal para enfrentar o problema.

E a razão era a de que o lobby pró-drogas havia se apossado de todas as instâncias decisórias do 2º escalão do governo, como Senad, Conad, política prisional, e de saúde mental, impondo o discurso liberacionista, muitas vezes, contra até quem estava no comando do país.

Nesse discurso dito antiproibicionista é proibido: pensar diferente, falar em reduzir o consumo de drogas, trabalhar a abstinência dos dependentes químicos, falar em comunidades terapêuticas e dar importância ao tratamento psiquiátrico e hospitalar.

Com o correr dos anos, eles foram radicalizando e transformaram a Lei nº 10.216/2001, chamada Lei Antimanicomial, que trazia um componente importante de humanização do atendimento para transtornos mentais, num instrumento de negação das práticas baseadas em evidências científicas e da psiquiatria em geral.

A maior parte da tragédia que se abate sobre a nossa juventude hoje, na epidemia de drogas e violência, tem a assinatura dos que se intitulam liberacionistas, ou antiproibicionistas, responsáveis por essa política caótica vigente, de forte cunho ideológico, ineficaz e completamente fora da realidade. A sociedade brasileira está pagando um preço muito alto por isso, inclusive com a vida de milhares de seus filhos mais jovens.

Os autores do texto procuraram adoçar sua postura, colocando-se como abertos ao debate sem rótulos. Isso depois de me rotular como retrógrado, extremista e stalinista. Mas vamos supor que gostariam de fazer um debate “democrático, prudente e cientificamente embasado” como escreveram. Mesmo assim, isso não impede de melhorarmos a proposta de enfrentamento às drogas, já no Conad, e continuarmos debatendo.

Afinal, se não a melhorarmos, vamos continuar debatendo indefinidamente na vigência da proposta atual, que está há 20 anos em vigor, e que, além de inócua, não só contraria o bom senso, mas à opinião da maioria da população e dos seus representantes. População essa que sofre na própria pele o agravamento do problema –e não vê saída no modelo vigente.

Como médico, aprendi que todo diagnóstico e tratamento deve ter uma base científica, evidências, que mostram o que funciona e o que não funciona. Caso contrário, corremos o risco de piorar a saúde de quem tratamos. Nas políticas públicas não é muito diferente.

Os recordes de homicídios e de dependentes em busca de tratamento, o verdadeiro holocausto dos nossos jovens, demonstram, na prática, o fracasso da atual proposta. Afinal, como dizia um velho filósofo alemão: “o critério da verdade é a prática“.

Quanto à parte científica, o discurso do texto pró-drogas é um, e a ação, outra. Os drs. Luís Fernando e Sidarta são ativistas da Plataforma Brasileira de Política de Drogas, uma rede de ONGs com o propósito comum da liberação geral de drogas –curiosamente trabalhando, quase todas, com o mesmo financiamento internacional…

Em setembro passado, ela lançou uma revista “científica” chamada “Platô“. Neste número inaugural, foram publicados artigos das ONGs Abracannabis e a Associação Psicodélica do Brasil. E tem um editorial que, entre outras coisas, afirma: “não alimentar ilusões sobre a neutralidade científica, como se evidências fossem capazes de indicar espontaneamente os caminhos a seguir…

Os principais artigos são: “A fumaça do bom Direito: demandas pelo acesso legal à maconha na cidade do Rio de Janeiro”, “Redução de danos e substâncias psicodélicas em festas de música eletrônica” e o “Futuro da Dependência”, com críticas à visão científica, referendada pela imensa maioria dos pesquisadores e importantes publicações da área, como a revista “Nature“, que comprova que a dependência química é uma doença crônica, praticamente sem volta.

A autora refuta tal afirmação baseada em textos de filósofos e antropólogos, entre eles o francês Bruno Latour, que afirma: “Temos que rejeitar a natureza…rejeitar a crítica acadêmica convencional…não podemos argumentar baseados em verdades originais da natureza (ou do corpo natural)…” Deu para entender?! Enfim, essa é a ciência dos liberacionistas, retratada nas suas publicações.

Como no dia a dia da aplicação de políticas públicas somos atropelados pelo mundo real, temos que mudar urgentemente o que vinha sendo feito até agora, para, de fato, melhorar a vida da população. Temos que reduzir os infames números de mortes violentas, por homicídio, acidente e suicídio.

Temos que atender aos que necessitam de tratamento e dar o que de melhor temos nas evidências científicas, e não ofertar, como se faz hoje, um único caminho, que é só a redução de danos. E isso se faz também reduzindo a circulação das drogas, e não o contrário. Temos que restringir a oferta de drogas lícitas e não liberar as ilícitas.

A maioria das mortes violentas não é diretamente pelo tráfico de drogas, apesar de toda mídia, as minisséries e as histórias que o tema desperta. A maioria das mais de 110 mil mortes violentas/ano no Brasil ocorre por discussões banais, crimes passionais, latrocínio, violência doméstica, acidentes com veículos e suicídios. A imensa maioria tem, atrás delas, uma mente alterada. E, numa alta proporção, alterada pelas drogas lícitas e ilícitas.

A forma mais comum de violência, a violência doméstica, é um exemplo disso. Tem como causa maior o álcool, por ser uma droga legal e de fácil acesso. Imaginem se legalizarmos as outras drogas, com seu séquito de transtornos mentais, o quanto essa forma de violência aumentará.

Bastou criar um controle maior sobre o consumo de álcool em condutores de veículos para que as mortes por acidentes de trânsito caíssem. Se conseguirmos detectar as demais drogas nos motoristas ao volante, diminuirão muito mais os acidentes.

Quanto ao argumento de que a legalização das drogas reduziria a violência, gostaria de lembrar que tão grave quanto o contrabando de drogas ilícitas na fronteira brasileira é o contrabando do cigarro, uma droga legal, que é feito também pelo mesmo crime organizado que comanda a venda de drogas ilícitas.

Hoje, mais de 40% dos cigarros consumidos no Brasil são contrabandeados do Paraguai. Seu preço é menor, sua qualidade pior, mas dá muito lucro para quem faz a venda ilegal. Além disso, é importante citar que o cigarro legal arrecada em impostos só 25% do que gasta o sistema de saúde para tratar as doenças que causa. Não seria diferente com as demais drogas.

A experiência do mundo mostrou que os índices de violência e o aumento de consumo, que acompanha a epidemia de drogas, se reduzem com mais rigor no seu enfrentamento e não com a liberação.

Nova Iorque, nos anos 1990, era a capital mundial do crack, com centenas de cracolândias e um recorde de 2.245 homicídios/ano. Cerca de 4% da população era dependente da droga. Com o aumento do rigor na lei contra o tráfico e com a adoção da tolerância zero pelo então prefeito Rudolph Giuliani, houve uma redução substancial do consumo. Hoje são 0,4% de usuários e o número de homicídios vem caindo há 27 anos, até chegar aos 285 no ano de 2017: uma taxa, por população, 10 vezes menor!

Quanto à afirmação de que a maconha é boa porque tem propriedades medicinais, fico com a posição do maior pesquisador brasileiro sobre canabinóides (substâncias encontradas na maconha que atuam no cérebro), o dr. José Alexandre Crippa, da USP de Ribeirão Preto. Crippa afirma que os possíveis efeitos medicinais da droga –em casos específicos e raros de epilepsia, distúrbios psíquicos e neurológicos– são devidos a uma molécula determinada, o canabidiol, sem efeito viciante, que hoje já está sendo sintetizado e usado comercialmente.

Muito diferente de usar o canabidiol isolado para tratamentos é tentar passar a ideia de que o cigarro de maconha é medicinal. Não é! Pois nele existem 480 substâncias diferentes, na sua grande maioria causadoras de danos irreversíveis à saúde, tanto física quanto mental. Crippa alerta que existem 22 mil trabalhos científicos publicados sobre a maconha, catalogados no Pubmed, quase todos mostrando esses danos. Um dos maiores psiquiatras e pesquisadores brasileiros nessa área, titular de Psiquiatria da USP, Valentim Gentil Filho, afirma com todas as letras “a maconha é uma fábrica de esquizofrênicos”, e “se fosse para escolher uma única droga para ser banida, eu escolheria a maconha“.

Um dos maiores erros cometido pela turma do lobby pró-drogas é disseminar informações falsas sobre as drogas, principalmente nas redes, onde os mais jovens têm mais acesso. A campanha de que a maconha não faz mal, é remédio, é um exemplo disso. E, assim, vão induzindo os incautos a experimentar e a ficar dependentes, quando não com transtornos mentais definitivos.

Quanto à questão social, Nils Berjerot, um dos pais da psiquiatria sueca, uma das referências mundiais no estudo sobre as epidemias de drogas e autor do termo “Síndrome de Estocolmo”, explica: “Se as péssimas condições sociais afetam o consumo de drogas, é difícil explicar porque a ação epidêmica das drogas atinge oito vezes mais homens que mulheres. As mulheres vivem nas mesmas casas que os homens vivem e seus salários são, em geral, mais baixos“.

Ele também explica sobre a epidemia: “Historicamente, em qualquer lugar onde houve epidemia de consumo de drogas, o abuso massivo não pôde ser detido até que restrições foram impostas à venda da substância. Isso mostra o papel da acessibilidade da droga em manter a epidemia“.

Sobre a dependência química, Berjerot também afirma algo que qualquer usuário de drogas e seus familiares sabem, mas os liberacionistas não querem admitir: “Frequentemente o abuso inicial da droga é completamente incidental: curiosidade, desejo de pertencer a um grupo, ou necessidade medicamentosa. O incidente que leva o indivíduo a iniciar o uso não tem nada em haver com o que o leva a persistir no uso e tornar-se dependente“. E eu acrescento o uso continuado das drogas modifica fisicamente as conexões cerebrais, para sempre.

Diz mais Berjerot: “O dependente químico não somente danifica a si próprio, a seus amigos e parentes, ele causa danos a toda a comunidade“.

Repetimos aqui o que afirmamos no 1º texto de resposta aos drs. Luís Fernando e Sidarta. Não existe exemplo no mundo de que liberando drogas melhora a questão social, de saúde e de violência. Ao contrário, tudo piora.

Chegou a hora de mudar, com urgência, uma política incapaz de prevenir o martírio de dezenas de milhares de jovens e suas famílias. O que não nos impedirá de seguir debatendo, com todas as correntes filosóficas, essa questão.

––

Esse artigo é resposta a um texto assinado por Luís Fernando Tófoli e Sidarta Ribeiro. Leia os artigos da discussão sobre a política nacional de drogas:

Política sobre drogas corre riscos com ‘perspectiva retrógrada’ de ministro – por Luís Fernando Tófoli e Sidarta Ribeiro

Discurso ideológico tenta abrandar leis de combate às drogas – Osmar Terra

Não é o uso de drogas que configura um problema social – por Luís Fernando Tófoli e Sidarta Ribeiro

Autores

Osmar Terra

Osmar Terra

Osmar Terra (PMDB-RS), 67, é médico, deputado federal, autor do PLC 37 (nova Lei Antidrogas) e ministro do Desenvolvimento Social.

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Para onde vai quem comete crime e sofre de doença mental

Sistema do CNJ contabiliza, pelo menos, 3 mil pessoas em cumprimento de medidas de segurança no Brasil. Na foto, de 2012, paciente internado no Hospital de Custódia de Belém. FOTO: Luiz Silveira/Agência CNJ

Na manhã de 2 de fevereiro de 2014, no Rio de Janeiro, a família do cineasta Eduardo Coutinho viveu uma tragédia. Durante um surto psicótico, Daniel, seu filho, matou o pai a facadas e tentou assassinar a mãe, que se escondeu no banheiro para não ser morta. Um ano depois, Daniel foi absolvido sumariamente.

O juiz o considerou esquizofrênico, inimputável, ou seja, incapaz de responder judicialmente pela morte do pai. Em um hospital de custódia e de tratamento psiquiátrico (HCTP), Daniel cumpre medida de segurança, espécie de sanção penal imposta a pessoas com doenças mentais. Atualmente, segundo o Sistema Geopresídios – Cadastro Nacional de Inspeções em Estabelecimentos Penais, mantido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) -, há 22 hospitais de custódia em funcionamento no Brasil. Os números por estado podem ser acessados aqui.

Como Daniel, outras 3.134 pessoas cumprem medidas de segurança no Brasil, de acordo com dados coletados no sistema Geopresídios em 8/10/2018. Incapazes de responder pelos seus atos, de acordo com a lei, elas precisam de tratamento, e não de punição. O Código Penal estabelece que o prazo mínimo de internação a ser estabelecido pelo juiz é de um a três anos, mas não prevê período máximo de duração.

Titular há dois anos da Vara de Execução de Penas e Medidas Alternativas (Vepema) de Porto Alegre, o juiz Luciano Losekann explica que os processos envolvendo essas pessoas correm normalmente e, ao longo da tramitação, se instaura o incidente de insanidade mental. “Trata-se de um exame médico legal para comprovar a condição de transtorno mental e ainda se foi esse problema que desencadeou a prática do delito”, afirma o magistrado do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS). Assim que o processo é encerrado, o juiz determina por quanto tempo a pessoa ficará internada em um hospital de custódia.

O Rio Grande do Sul conta com um estabelecimento para abrigar as pessoas que têm de cumprir medidas de segurança internados, o Instituto Psiquiátrico Forense (IPF). Atualmente, o prédio passa por reforma, orçada em R$ 4,8 milhões. Os recursos foram arrecadados pela Corregedoria-Geral de Justiça do TJRS junto a magistrados da execução criminal, responsáveis pela gestão das penas pecuniárias. Essas penas são aplicadas em substituição às privativas de liberdade, em casos de menor gravidade. Em 2016, as péssimas condições da unidade fizeram Luciano Losekann interditar totalmente o local. Falta de higiene e insalubridade em diversas áreas foram alguns dos problemas constatados durante uma inspeção. Os pacientes estavam responsáveis pela limpeza de diversas unidades e pelo preparo de seus próprios alimentos. “Os internos não têm condições pessoais, e tampouco segurança, para manusear facas, por exemplo”, lembra o magistrado gaúcho.

Desde que iniciou o trabalho na Vepema, Losekann realiza processo gradual de desinternação das pessoas que estão no IPF. Em dois anos, o número de pacientes passou de 440 para 166. Trata-se de uma tendência adotada em diversos países e seguida também pela Agência Nacional de Saúde. A ideia é que, depois de equilibrada mentalmente, a pessoa passe a receber tratamento ambulatorial e permaneça em uma casa de acolhimento ou com a família.

Resolução CNJ n. 113 prevê, em seu art. 17, que “o juiz competente para a execução da medida de segurança, sempre que possível buscará implementar políticas antimanicomiais, conforme sistemática da Lei n. 10.216”. A norma, também conhecida como Lei da Reforma Psiquiátrica, instituiu novo modelo de tratamento aos transtornos mentais no País.

Trabalho premiado

São Paulo é um dos estados que, na última década, conseguiu grandes avanços na administração do cumprimento de medidas de segurança. Em novembro de 2009, quando a 5ª Vara de Execuções Criminais Central foi especializada, iniciou-se um trabalho com o objetivo de acelerar e qualificar as decisões. Convênio firmado entre o Tribunal de Justiça de São Paulo e as secretarias estaduais de Saúde e de Administração Penitenciária permitiu a realização de mutirões de perícias. “Naquele tempo, o doente mental ficava esquecido na última cela do presídio e não havia efetivo andamento do processo”, afirma Paulo Sorci, titular da 5ª Vara de Execuções Criminais Central.

À época, 700 pessoas aguardavam vagas para internação. Em dois anos, foi possível reduzir sensivelmente a lista de espera. Hoje, a carência é de apenas 150 leitos. A reinauguração de parte do Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico I, que ocorrerá em novembro, vai permitir zerar a demanda, uma vez que a unidade passará a oferecer 400 vagas.

Para aqueles que não necessitam de internação em HCTPs, é feito o direcionamento ao tratamento ambulatorial. Três unidades – Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico I, Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico II e Hospital de Custódia de Tratamento Psiquiátrico Dr. Arnaldo Amado Ferreira e Centro de Readaptação Penitenciária de Taubaté  – recebem as pessoas em cumprimento de medidas de segurança. Por ano, em média, são feitas 500 perícias.

Atualmente, o sistema carcerário paulista abriga quase a metade das pessoas sem cumprimento de medidas de segurança no Brasil, pouco mais de 1,2 mil pessoas. Sorci afirma que a partir da parceria com o Poder Executivo e da organização do trabalho de uma equipe multidisciplinar, os resultados positivos apareceram em pouco tempo. “Algumas pessoas aguardavam havia mais de cinco anos, em unidades prisionais comuns, a realização de perícia, para possível internação em hospital de custódia”, explica Sorci. O tempo de reavaliação dos pacientes caiu de ano para meses.

O sucesso da ação garantiu, em 2015, a conquista do Prêmio Innovare na categoria juiz. O psiquiatra forense e professor da faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo Rafael Bernardon, que integra a equipe do projeto, diz que o Brasil conta com algumas ilhas de excelência, a exemplo de São Paulo e Goiás, estabelecidas na maioria das vezes por iniciativas individuais, não como política de Estado. Apesar de considerar que a realidade brasileira ainda está bem distante do conceito de psiquiatria moderna, Bernardon diz que houve avanços. “Pelo menos essa triagem inicial fazemos com algum sucesso.”

Com o processo de realização de perícias consolidado, iniciou-se o trabalho para a criação de uma central de atenção ao egresso e família. A unidade oferece assistência direta, promove o estreitamento dos vínculos familiares, a construção e ampliação da rede social de apoio, parcerias com órgãos governamentais ou não e projetos que priorizam a capacitação profissional e a geração de renda. O centro recebe encaminhamentos dos hospitais de custódia.

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Carência

Enquanto alguns estados enfrentam problemas de toda ordem nos espaços destinados a pessoas com transtornos psíquicos, outras unidades da Federação nem sequer contam com HCTP. É o caso do Mato Grosso do Sul, onde esses pacientes são acomodados em alas médicas de presídios comuns, administrados pelo Estado. “Não temos hospitais nem alas psiquiátricas para atender essas pessoas. Penso inclusive em acionar a Corte Interamericana de Direitos Humanos para denunciar a situação”, diz Cesar de Souza Lima, juiz titular da 3ª Vara Criminal de Dourados.

Atualmente, o magistrado sul-mato-grossense acompanha os casos de 22 pessoas internadas na Penitenciária Harry Amorim Costa, que abriga mais de 2.500 presos. Cesar afirma que, acolhidos em estabelecimentos penai comuns, não é raro que o quadro dos pacientes se agrave. O juiz diz que pode haver inclusive o agravamento da condição dos pacientes. “Muitos são extremamente violentos e perigosos, alguns tentam o suicídio. Essas pessoas precisam de tratamento mais específico”, afirma.

Assim como o colega do Rio Grande do Sul, o juiz do Tribunal de Justiça do Mato Grosso do Sul (TJMS) estuda formas de utilizar recursos provenientes das penas pecuniárias para melhorar o atendimento aos pacientes. A ideia é que o Ministério Público do estado dê entrada em uma ação civil pública para autorizar o uso desse dinheiro, a fim de contratar um psiquiatra e garantir atendimento digno a quem tem de cumprir medidas de segurança em presídios. “O Poder Judiciário tem que se ajustar à inércia do Executivo. ”

Além de profissionais de saúde, Amorim Costa busca parcerias para oferecer atividades lúdicas e preencher o tempo dos pacientes. Ele conta que muitas dessas pessoas são abandonadas pela família, uma vez que os crimes costumam ser cometidos contra alguém próximo, como mãe, pai ou irmãos. Os estabelecimentos de custódia e tratamento psiquiátrico não recebem apenas pacientes em cumprimento de medida de segurança. Nessas unidades, também é possível encontrar pessoas internadas em situação temporária, pessoas internadas para a produção de laudo pericial e pessoas internadas transferidas de presídios.

No Rio de Janeiro, o Tribunal de Justiça também trabalha para garantir que os pacientes abrigados nas duas unidades em funcionamento no estado – HCTP Henrique Roxo e HCTP Roberto de Medeiros – possam manter os vínculos com familiares. Hoje, há 180 pessoas custodiadas nesses hospitais.

Juíza titular da Vara de Execuções Penais do Rio de Janeiro, Roberta Barrouin Carvalho de Souza afirma que equipes multidisciplinares atuam para garantir a manutenção dos vínculos afetivos dos pacientes com familiares e amigos. A magistrada lembra de casos de pessoas internadas há mais de 20 anos, sem qualquer contato com o mundo fora do hospital. “Nos últimos dois anos, demos início a um trabalho gradual de enxugamento da população internada nos hospitais de custódia”, afirma.

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Na busca por um novo modelo para avaliar as condições desses pacientes, a Defensoria Pública do Rio de Janeiro desenvolveu ação que busca justamente promover uma análise mais completa dos casos, que vai muito além do tradicional exame de verificação de periculosidade. “Criamos o Exame Multiprofissional e Pericial de Avaliação Psicossocial (EMAP), que envolve não apenas um perito, mas toda a rede de atenção psicossocial, além da família do paciente”, informa a defensora pública Patrícia Magno.

Durante o processo de avaliação da possibilidade de liberação do paciente, é feito amplo trabalho para garantir que a pessoa não será largada à própria sorte. “Não se trata de abrir a porta e colocá-la na rua. Precisamos saber quem vai recebê-la, onde ela vai morar caso a família não a queira de volta, como se dará a continuidade do tratamento”, enumera Patrícia. Esse exame não indica apenas se a pessoa com transtorno mental é ou não perigosa, mas se tem ou não condição clínica de ser desinternada e continuar o tratamento em meio ambulatorial.

Com todos os dados em mãos, é marcada uma audiência de desinternação, que conta com a participação de profissional do HCTP (das áreas de psicologia, assistência social, enfermagem, entre outros), do Ministério Público, da Defensoria Pública, além de familiares e de representante do centro de atenção psicossocial (CAPS) onde a pessoa dará continuidade ao acompanhamento médico.

Aos poucos, o esforço tem garantido que grande parte das pessoas possa retornar à sociedade. Em 2016, foi possível encerrar as atividades do Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico Heitor Carrilho, no Rio. Na opinião de Patrícia Magno, o fechamento da unidade é simbólico por tratar-se do mais antigo do país, inaugurado em 1921.

Thaís Cieglinski
Agência CNJ de Notícias

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Measuring stress, coping, strain and hopefulness of Brazilian family members of substance misusers: Factor structure of a set of measures

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É com grande alegria que anunciamos a publicação do artigo da Psicóloga Vanessa Sola, terapêuta da Clínica Gressus na Revista internacional de grande relevância “Journal of Substance Use” com o Título: “Measuring stress, coping, strain and hopefulness of Brazilian family members of substance misusers: Factor structure of a set of measures”, que foi escrito com base nos dados da pesquisa do LENAD Família;

O artigo contou também com os seguintes autores:  

Objectives: We evaluated the psychometric properties of the Brazilian version of a set of measures designed to assess four psychological constructs associated with having a substance misusing relative in the family: the Family Member Impact (FMI), the Symptom Rating Test (SRT), the Coping Questionnaire (COPE) Hopefulness-hopelessness scale (HOPE). Methods: Secondary data from 3056 affected family members (AFMs) was analyzed. Factor structure of the measures and group invariance across gender were assessed using confirmatory factor analysis. Results: The Brazilian version of COPE showed that a four-factor model with 24 items fit the data better than the original three-factor model with 30 items. The FMI measure showed that a three-factor model is more appropriated to the Brazilian version of the scale than the original two-factor model. HOPE and SRT (29 items) Brazilian’s version had the same two-factor model structure. This set of measures presented full measurement and structural invariance for both male and female. Conclusions: Findings provide support for the structural validity of the Brazilian version of a set of standard measures for the assessment of stress, coping, strain and hopefulness of AFMs by their relatives’ substance misuse. As this is the first study to explore the factorial model of the measures, it provides further support for the use of these instruments for future studies aiming to explore means on supporting AFMs in Brazil and elsewhere.

 

Received 16 Jan 2018, Accepted 10 Sep 2018, Published online: 08 Oct 2018
Nossos parabéns pela conquista Vanessa Sola e Equipe
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XXIX Simpósio Bairral desmistificando o autismo

Bairral

Serão 11 palestras sobre os principais temas relacionados ao autismo: o que é o autismo, direitos legais das crianças autistas, como é a vida dos familiares de pessoas com TEA, iniciativas de ajuda mutua, os principais tipos de tratamentos e intervenções disponíveis.

Destaques:
O que é autismo

O que é o autismo

Com Taís Moriyama, médica psiquiatra da infância e da adolescência, mestre e doutora pela UNIFESP, aluna de PhD na Maastricht University e diretora técnica do Bairral.


Os direitos da criança autista

Os direitos da criança autista

Com Camilla Cavalcanti, advogada engajada no desenvolvimento de mecanismos jurídicos de defesa dos Direitos de Pessoas com Necessidades Especiais (PNE).


Estimulação funcional em autismo

Estimulação funcional em autismo

Com Liliane Rocha, Mestre em Psicologia pela Queens College (NY), Mestre em Processos de Aprendizagem e Análise do Comportamento pelo Graduate Center (NY), e doutoranda no Cummings Graduate Institute of Behavioral Health Studies.


A Maternidade Azul

A Maternidade Azul

Com Mariana Alckmin, mãe de gêmeos com diagnóstico de TEA e fundadora do grupo TEApoio (grupo de apoio à pais e familiares de autistas) que hoje conta com mais de 600 famílias no estado de SP.

Teapoio.com.br

Data:  27 de outubro 2018

Das 9:00h às 17:35h

Local: Bairral – Rua Hortêncio Pereira da Silva, 313, Centro, Itapira-SP

Informações e inscrições: http://desmistificandooautismo.com.br/

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